Mulheres yanomami lançaram um manifesto contra a candidatura de Flávio Bolsonaro antes do segundo turno das eleições gerais deste ano. No documento, assinado por 60 lideranças, elas afirmam temer a retomada do garimpo ilegal e da crise de saúde que atingiu o território durante o governo de Jair Bolsonaro.
As lideranças também declararam apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Em vídeo gravado no fim de setembro, Noemia Yanomami, moradora da comunidade Papiu, disse que não quer ver as crianças voltarem a sofrer com a malária. A localidade foi uma das áreas mais afetadas pela invasão garimpeira na Terra Indígena Yanomami.
Entre 2019 e 2022, 420 crianças yanomami com menos de cinco anos morreram de causas consideradas evitáveis, como malária, desnutrição e infecções parasitárias, segundo dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi), ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS). O número foi quase o dobro do registrado nos quatro anos anteriores.
Do total, 47 mortes foram associadas à malária e 115 à desnutrição. O manifesto relaciona o período a doenças e problemas como diarreia, verminoses, feridas, pneumonia e desnutrição. As mulheres afirmam não querer voltar a viver uma situação em que precisem chorar pela morte de crianças.
Postos fechados e falta de medicamentos
Durante o auge da invasão garimpeira, pelo menos seis postos de saúde foram fechados ou destruídos. De acordo com um relatório do Ministério Público Federal (MPF), a interrupção deixou 72 comunidades sem atendimento médico, afetando mais de 4 mil indígenas.
O documento do MPF afirma que a mineração ilegal, somada à falta de segurança territorial oferecida pelo Estado, contribuiu para o colapso de um sistema de saúde que já era frágil. O posto de Homoxi, que atendia cerca de 250 indígenas, foi incendiado em dezembro de 2022. Garimpeiros ilegais são suspeitos pelo incêndio, segundo o relatório.
Em Kayanau, profissionais de saúde estimaram que 1,6 mil garimpeiros atuavam na região. O relatório também menciona intenso fluxo de aeronaves, prostituição e abandono da agricultura no local.
A mineração e a violência dificultaram ainda a entrega de medicamentos a comunidades acessíveis apenas por via aérea. Uma carta da Associação Hutukara Yanomami, obtida pela Repórter Brasil e datada de setembro de 2022, relatou falta de remédios em postos próximos às áreas invadidas de Xitei e Surucucu.
Em um intervalo de três semanas entre agosto e setembro daquele ano, seis crianças morreram, uma delas em decorrência de uma forma de pneumonia associada a uma infestação intensa de vermes. Segundo a associação, não havia medicamentos para controlar infecções parasitárias em comunidades inteiras.
Apuração sobre recursos da saúde
Investigações do MPF também encontraram indícios de um suposto esquema de fraude e desvio de recursos públicos destinados à saúde indígena. O Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami reservou R$ 3 milhões em 2021 para a compra de medicamentos essenciais, mas há suspeitas de que apenas uma parte dos produtos tenha sido entregue, embora as notas fiscais tenham sido pagas integralmente.
O relatório estima que mais de 10 mil crianças indígenas podem ter ficado sem tratamento contra infecções parasitárias. A apuração cita casos graves, incluindo relatos de crianças que expeliram vermes pela boca.
Uma estimativa da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), feita em fevereiro de 2023, apontou a presença de 20 mil garimpeiros ilegais no território. Dados do Centro de Gestão Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia indicaram mais de 1,5 mil áreas de mineração em operação entre 2020 e 2022, com devastação de 2,2 mil hectares.
Em janeiro de 2023, primeiro mês do terceiro mandato de Lula, o governo decretou emergência devido ao colapso do atendimento de saúde na Terra Indígena Yanomami.
Fonte: Repórter Brasil.

