A Amazônia Legal registrou 3.695 focos de calor na semana seguinte ao primeiro turno das eleições, quase o dobro dos 1.854 contabilizados nos sete dias anteriores à votação. Os dados são de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e foram divulgados em reportagem da Repórter Brasil.
A alta se concentrou principalmente no Amazonas e no Pará. O aumento ocorre durante um período de seca associado ao fenômeno El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico e tende a reduzir as chuvas na região.
Seca aumenta risco de propagação
Segundo Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), queimadas nessa época do ano não são incomuns, mas a elevação recente do número de focos chamou a atenção de pesquisadores. Ela citou áreas no entorno de Manaus, a região de Santarém, o trecho paraense da BR-163, a Terra do Meio e municípios da Transamazônica entre as áreas mais afetadas.
A pesquisadora afirmou que mapas de anomalia de seca indicam escassez hídrica importante nas regiões de Santarém, Manaus e no norte de Roraima. A avaliação é que a situação pode piorar nos próximos meses. O período também coincide com o uso do fogo por produtores para queimar e renovar pastagens, prática que pode favorecer a propagação das chamas quando a vegetação está mais seca.
Em Novo Progresso, no oeste do Pará, a reportagem registrou fumaça diariamente ao longo da BR-163. Um fazendeiro ouvido sob anonimato relatou que o fogo havia destruído cercas e porteiras e disse temer perder o gado.
Pesquisadores citam possível ocupação de áreas públicas
Além da seca e do fogo em pastagens, especialistas apontam a possibilidade de ações criminosas relacionadas à ocupação de terras. Alencar afirmou que focos identificados na margem direita do rio Amazonas, em frente a Manaus, apareceram principalmente em áreas de floresta e terrenos públicos. Para ela, esse padrão pode indicar tentativa de ocupação e grilagem, mas a reportagem não apresenta uma conclusão definitiva sobre a origem de todos os incêndios.
O ministro interino do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, disse que o problema não se limita a chamas que escapam de pastagens. Segundo ele, autoridades identificaram focos dentro de áreas de floresta preservada e associaram a gravidade do quadro à atuação criminosa na Amazônia.
De acordo com a Agência Brasil, o governo federal investiga se houve uma organização coordenada dos incêndios, em hipótese comparada ao aumento de focos registrado em 2019, conhecido como “Dia do Fogo”. O material não informa a existência de uma conclusão sobre essa investigação.
Nas Terras Indígenas Menkragnoti e Baú, o povo Kayapó acompanha o avanço do fogo e do desmatamento no entorno dos territórios. Moradores de quatro aldeias visitadas disseram temer que a eleição de políticos de extrema direita estimule invasões de terras indígenas e reservas ambientais. O cacique Bepdjô, da aldeia Baú, afirmou que Flávio permitiria a entrada de garimpeiros nos territórios, uma avaliação apresentada como preocupação da liderança indígena.
Para Tarcísio Feitosa, da Coalizão Florestas e Finanças, a falta de responsabilização por queimadas anteriores contribui para a repetição dos incêndios. A declaração foi dada no contexto da reportagem, que não apresenta números sobre investigações, denúncias ou condenações relacionadas aos focos atuais.
Fonte: Repórter Brasil.

