Fã-clubes de artistas como Beyoncé, BTS, Lady Gaga e Billie Eilish levaram estratégias próprias das comunidades digitais para a campanha de Lula (PT) nas eleições de 2026. Um levantamento do Laboratório Cultpop, feito com pesquisadores de oito universidades a partir da análise de 6,5 mil publicações, identificou nove tendências desse movimento.
A mobilização ganhou força depois do primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Em 5 de outubro, o fã-clube Info Billie Brasil ofereceu as redes sociais à campanha do petista para compartilhar informações de interesse público. A iniciativa estimulou outras comunidades a fazer o mesmo.
Rafaella Silveira, do portal Beyoncé Brasil, afirmou que o grupo passou a apoiar a campanha depois de observar a movimentação de outros fã-clubes. Segundo ela, a articulação ocorreu primeiro no Twitter e depois no Instagram, além da retomada do projeto Fandoms pelo Brasil, que reunia comunidades em torno de causas consideradas importantes pelos participantes.
Das redes para as ruas
As comunidades ajudaram a divulgar um ato em apoio a Lula na Avenida Paulista, em 11 de outubro. Organizada por associações estudantis, a manifestação teve divulgação dos fandoms. No trio elétrico, o então candidato agradeceu a participação dos grupos: “Fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês”.
O movimento Fandoms com Lula reuniu admiradores de cerca de 70 artistas nacionais e internacionais. Cartazes com referências a cantoras como Beyoncé e Lady Gaga apareceram em manifestações pró-Lula. A pesquisa aponta que os fandoms musicais foram os protagonistas da mobilização digital, embora fãs de heróis, séries e outros universos da cultura pop também tenham participado.
O estudo identificou que a disputa eleitoral foi atravessada por identidades e linguagens específicas. Cada comunidade mobilizou referências visuais e culturais já conhecidas pelo próprio público, facilitando a circulação de mensagens políticas nas redes.
Mulheres e pessoas LGBT+ tiveram papel central na administração dos fã-clubes. Para os pesquisadores, a presença desses grupos dialoga com a valorização do feminismo e de figuras femininas que já é comum em comunidades dedicadas às divas pop.
Memes, desafios e inteligência artificial
As estratégias usadas na campanha foram adaptadas de práticas rotineiras dos fandoms, como mutirões para aumentar visualizações de clipes, reproduções de músicas e métricas de engajamento. Desafios, memes e conteúdos de humor passaram a ser utilizados para incentivar a participação política.
Beatriz Blanco, doutora em comunicação e coordenadora do estudo, explicou que essas ações foram deslocadas para o ativismo, levando ao debate político técnicas já conhecidas pelas comunidades.
Após o primeiro turno, o humor também foi usado por setores da esquerda para expressar a sensação de urgência e responder a publicações de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o professor Eloy Vieira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), memes e piadas passaram a funcionar como formas de identidade, pertencimento e disputa ideológica.
O levantamento registrou ainda uma mudança na relação de parte da esquerda com a inteligência artificial generativa. Grupos que antes criticavam a tecnologia passaram a criar conteúdos com Lula e Flávio Bolsonaro retratados como personagens de novelas, reality shows e artistas pop.
Fãs também recorreram à memória afetiva de suas comunidades. Referências de Star Wars foram usadas para estabelecer paralelos com a disputa política, enquanto canções de Madonna ajudaram outros grupos a interpretar a conjuntura eleitoral.
Um movimento anterior a 2026
A participação política dos fandoms já havia aparecido em iniciativas anteriores. Em 2022, a campanha Fandoms Pelo Voto mobilizou jovens de 16 a 18 anos para tirar o título de eleitor. Em 2024, o Fandoms Pela Amazônia promoveu mutirões em defesa da preservação ambiental.
Para Adriana Amaral, coordenadora do Cultpop, as eleições de 2026 representaram uma nova dimensão do fenômeno. A pesquisadora afirmou que as ruas e as redes não funcionaram como espaços separados, mas como formas de comunicação criativa que se conectaram durante a mobilização.

