Trinta anos depois de ser baleado no olho durante o massacre de Eldorado do Carajás, José Carlos Agarito Moreira continua com o projétil alojado atrás da cabeça. Aos 48 anos, ele vive em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, enfrenta dores intensas e faz sessões de hemodiálise três vezes por semana. Com apoio de um advogado e da associação de sobreviventes, tenta restabelecer o atendimento médico que, segundo ele, foi interrompido.
Moreira tinha 18 anos quando policiais militares abriram fogo contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que bloqueavam a rodovia PA-150, na Curva do S, em Eldorado do Carajás. O protesto exigia a desapropriação da fazenda Macaxeira para a reforma agrária. Dezenove trabalhadores morreram no local e outros dois morreram nos dias seguintes em consequência dos ferimentos. Dezenas ficaram feridos.
O disparo atingiu o olho direito de Moreira, que passou a usar uma prótese. A bala nunca foi retirada. Ele relata dores de cabeça, episódios de desmaio e secreção na região do pescoço e do ouvido. A piora dos ferimentos o impediu de continuar trabalhando na terra.
Da terra conquistada ao tratamento médico
Menos de um ano após o massacre, Moreira recebeu um lote no assentamento 17 de Abril, criado na antiga fazenda Macaxeira. Por cerca de 20 anos, cultivou a área e criou os filhos. Com o agravamento dos problemas de saúde, vendeu o lote e se mudou para a cidade em busca de atendimento.
Ele chegou a morar em Eldorado do Carajás, mas depois foi para Canaã dos Carajás para reduzir o deslocamento até o tratamento. As viagens para a diálise em Marabá consumiam um dia inteiro. Atualmente, mora com a mulher em uma casa de madeira. A compensação que recebe é comprometida por empréstimos feitos para pagar despesas médicas, segundo a reportagem. Depois dos descontos, restariam cerca de R$ 500 por mês, e os dois filhos ajudam com a alimentação.
A associação de vítimas afirma que Moreira não é o único sobrevivente com sequelas graves e dificuldades para obter atendimento. Segundo Maurílio da Silva Soares, presidente da entidade, 69 trabalhadores ficaram feridos no massacre e pelo menos 25 ainda aguardam indenização ou relatam problemas para manter o tratamento médico.
Respostas do governo do Pará
A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) informou que aguarda o envio formal dos pedidos pelos representantes dos sobreviventes para iniciar o processo administrativo no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a secretaria, os documentos necessários ainda não foram apresentados. O órgão não informou quantos sobreviventes recebem atendimento atualmente nem explicou como é feito o acompanhamento médico.
A Procuradoria-Geral do Estado afirmou que o Pará cumpre as obrigações assumidas com o governo federal no sistema interamericano de direitos humanos. Sobre as decisões judiciais, declarou que todas foram cumpridas e encerradas. As versões divergem da avaliação da associação, que sustenta que os sobreviventes continuam sem a assistência prevista em decisões e acordos firmados desde o fim dos anos 1990.
Na Justiça, 144 policiais foram acusados; 142 foram absolvidos. Apenas os dois comandantes da operação, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Oliveira, foram condenados por homicídio. O caso levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos pelo MST e pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional foi considerado admissível em 2003, mas ainda não tem decisão final.
O massacre também permanece associado à violência no campo no Pará. Levantamento baseado em dados da Comissão Pastoral da Terra aponta 1.003 assassinatos em conflitos rurais no estado entre 1980 e 2024, o maior número entre as unidades da Federação. Quase 75% dos casos ocorreram no sul e no sudeste paraenses.
Fonte: Repórter Brasil.

