Um composto derivado da soja reduziu alterações associadas ao consumo excessivo de sal em camundongos, incluindo aumento da pressão arterial, prejuízos de memória e menor interação social. Os resultados foram observados em animais que receberam o LPC70 junto com uma dieta rica em sal e ainda não indicam que o efeito se repita em seres humanos.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Fujita Health University, no Japão, em colaboração com pesquisadores da Tsuji Oil Mills e da Universidade de Mie. O trabalho foi divulgado on-line em 14 de maio de 2026 e publicado em 1º de julho na revista Neurochemistry International.
Como o composto foi testado
O LPC70 é uma forma de lisolecitina de soja na qual a lisofosfatidilcolina representa mais de 70% dos fosfolipídios. Estudos anteriores já haviam associado o ingrediente à redução da hipertensão e de dificuldades cognitivas provocadas por uma dieta rica em sal em camundongos.
Na nova investigação, a equipe liderada pelo professor Akihiro Mouri e pelos pesquisadores Hisayoshi Kubota e Kazuhiro Kagotani avaliou pressão arterial, comportamento e alterações moleculares em animais submetidos ao excesso de sal. Os camundongos também passaram por testes de interação social e de reconhecimento de objetos.
A dieta rica em sal elevou a pressão arterial e foi acompanhada por menor interesse em interagir com outros animais e por dificuldade para reconhecer objetos vistos anteriormente. Não foram observadas mudanças substanciais na movimentação geral nem em comportamentos semelhantes à ansiedade.
Quando o LPC70 foi acrescentado à dieta, os animais apresentaram melhora da pressão arterial e desempenho superior nos testes de interação social e memória de reconhecimento de objetos.
Sinais diferentes nos rins e no cérebro
Os pesquisadores concentraram a análise nas prostaglandinas, moléculas sinalizadoras produzidas a partir do ácido araquidônico. Esses compostos participam da regulação dos vasos sanguíneos e também atuam em processos no cérebro, com efeitos que variam conforme o receptor ativado.
Nos rins, o excesso de sal aumentou a expressão da enzima COX-2 e do receptor EP3, componentes relacionados à sinalização da prostaglandina E2. O LPC70 reduziu essas alterações, o que, segundo os autores, pode ajudar a explicar o efeito observado sobre a pressão arterial.
No córtex pré-frontal, região envolvida em pensamento, memória e comportamento social, a dieta rica em sal reduziu a expressão do receptor DP1, associado a sinais protetores e anti-inflamatórios. O LPC70 restaurou a expressão desse receptor, sem alterar o DP2, que também participa da sinalização das prostaglandinas.
Os animais que receberam excesso de sal apresentaram níveis menores de ácido araquidônico circulante. Mesmo assim, após a suplementação com LPC70, aumentaram os níveis de prostaglandinas derivadas desse ácido, como PGE2 e PGD2. Os pesquisadores avaliam que o composto pode ter influenciado o uso do ácido araquidônico pelo organismo.
Resultados ainda precisam ser avaliados em pessoas
Os achados indicam que o LPC70 atuou de maneira distinta nos rins e no cérebro: reduziu alterações associadas à hipertensão em um órgão e restaurou uma via de sinalização considerada protetora no outro. Essa resposta seletiva foi relacionada às melhorias comportamentais observadas nos camundongos.
O estudo levanta a possibilidade de uso futuro do composto como ingrediente funcional, mas os próprios pesquisadores apontam a necessidade de estudos clínicos para verificar se os benefícios também ocorrem em humanos. Portanto, os resultados não comprovam que produtos à base de soja possam neutralizar os efeitos de uma dieta rica em sal.
A pesquisa recebeu financiamento de programas e fundações japonesas, além de apoio da Tsuji Oil Mills, empresa envolvida no desenvolvimento de ingredientes alimentares de origem natural.

