O filme Feito Pipa, dirigido pelo cearense Allan Deberton, chegou aos cinemas nesta quinta-feira (5) com a expectativa de conquistar uma indicação ao Oscar. Em vez de concentrar a narrativa nas capitais e nos cenários urbanos mais conhecidos, a produção aposta na paisagem e no cotidiano de Quixadá, no sertão central do Ceará.

O longa acompanha Gugu, interpretado por Yuri Gomes, de 12 anos. Apaixonado por futebol e dança, o menino sonha em se tornar jogador profissional e enfrenta o preconceito por ser afeminado. Ele vive com a avó Dilma, papel de Teca Pereira, que enfrenta o avanço do Alzheimer e pode ser separada do neto, de quem cuidou durante toda a vida.

A possibilidade de mudança surge quando Gugu precisa lidar com a chance de deixar a casa da avó para morar com o pai, Batista, interpretado por Lázaro Ramos. A relação entre os dois se desenvolve em meio a conflitos familiares e a aulas de pilotagem de moto, que funcionam como um ponto de aproximação entre pai e filho.

Quixadá como parte central da história

Em Feito Pipa, Quixadá não aparece apenas como pano de fundo. A cidade, que tem cerca de 81 mil moradores, participa da construção do universo de Gugu, com estradas de terra, campos improvisados, festas de forró e espaços de convivência. O filme procura mostrar a vida interiorana sem associar automaticamente simplicidade a miséria ou falta de perspectivas.

Uma seletiva de futebol realizada em um campo improvisado, por exemplo, coloca a poeira e a precariedade aparente do espaço em segundo plano diante da dimensão de acolhimento que ele assume para as crianças. Na casa de Dilma, o jardim, os símbolos católicos e o contato com a natureza também compõem a rotina do protagonista.

A produção ainda incorpora elementos do cotidiano local, como a circulação de motocicletas. Segundo o material do filme, a escolha dialoga com dados do IBGE sobre a frota nordestina: na região, 34,5% dos veículos são motocicletas, ante 30% de carros.

O município também oferece referências que ultrapassam a ficção, como os grandes monólitos, a fazenda Não Me Deixes, que pertenceu à escritora Rachel de Queiroz, e um campus de tecnologia da Universidade Federal do Ceará.

Uma representação fora dos grandes centros

A aposta do diretor diferencia o longa dos filmes brasileiros citados como parte da trajetória recente do país na disputa internacional. Ainda Estou Aqui se passa no Rio de Janeiro e em São Paulo, enquanto O Agente Secreto tem como principal cenário o Recife da década de 1970. A nova produção desloca o foco para uma cidade distante dos cartões-postais mais conhecidos.

O escritor Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, resume essa perspectiva ao afirmar que o Brasil também é formado por vidas e pessoas ainda invisíveis, além dos lugares exaltados na televisão.

Com essa abordagem, o filme busca ampliar a representação de comunidades que vivem longe das metrópoles. A produção foi apontada como a mais premiada da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado e agora entra na corrida por uma vaga entre os indicados ao Oscar.

Share.

Sou Geraldo, autor do Ginga Notícias. Gosto de acompanhar o que acontece no Brasil e no mundo e, principalmente, de entender o que existe por trás das notícias. Por aqui, compartilho informações, acontecimentos e assuntos do dia a dia com uma linguagem simples e direta, sempre pensando em quem está do outro lado lendo.

Leave A Reply