Um levantamento da Repórter Brasil identificou 88 projetos de minerais críticos da 3D Minerals sobrepostos ou localizados na zona de impacto de 127 áreas protegidas no país. A relação inclui dez terras indígenas, cinco territórios quilombolas, 23 unidades de conservação e 89 assentamentos de reforma agrária.
Os dados foram extraídos do Observatório da Transição Energética, plataforma mantida pela Repórter Brasil em parceria com o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e o PoEMAS (Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade). A ferramenta monitora os impactos de empreendimentos associados à transição energética.
Entre as áreas citadas estão as terras indígenas Kayapó, Mãe Maria, Yanomami, Kayabi, Xikrin do Rio Cateté e Piripkura. Também aparecem os territórios quilombolas Lagoa Grande, Pitombeira, Kalunga e Família Magalhães.
Dos 88 requerimentos, pelo menos 73 já tinham pesquisa mineral autorizada pela Agência Nacional de Mineração (ANM), segundo dados públicos da agência referentes a abril de 2026. Os processos envolvem cobre, lítio, bauxita, cassiterita e terras raras — matérias-primas utilizadas em produtos como chips, torres eólicas e carros elétricos, além de aplicações na indústria bélica e tecnológica.
Leilão e financiamento
A 3D Minerals arrematou as áreas em um leilão da ANM realizado em agosto de 2024, 45 dias depois da fundação da empresa. Segundo informações citadas pela reportagem, a mineradora venceu o certame e obteve 276 áreas no país, sendo 116 relacionadas a minerais críticos.
Três meses depois, a empresa recebeu um empréstimo de R$ 152,9 milhões do Banco Master para financiar a aquisição das áreas. Metade das ações da mineradora foi oferecida como garantia, de acordo com a reportagem. Após a liquidação do Master pelo Banco Central, o crédito passou ao BRB (Banco de Brasília).
A 3D Minerals pertence aos irmãos Daniel Wanderley e Eduardo Wanderley, que são de Belo Horizonte e têm negócios no setor de construção civil. A Repórter Brasil informou que a empresa não respondeu aos pedidos de manifestação.
Quilombos e unidades de conservação
Um dos casos apontados envolve um requerimento de terras raras sobreposto ao Quilombo Família Magalhães, no norte de Goiás. A comunidade foi reconhecida como quilombola há 22 anos, mas ainda aguarda o título definitivo da terra. A ANM autorizou a pesquisa em janeiro de 2025 sem consulta prévia aos moradores, segundo os documentos analisados pela reportagem.
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil em 2004, prevê a consulta a comunidades tradicionais sobre empreendimentos que possam afetá-las. A agência, porém, concluiu no processo que a área estava livre, sem registrar a existência do quilombo. A liderança da comunidade, Gilvan Magalhães, afirmou à Repórter Brasil que ninguém havia procurado os moradores.
O mesmo requerimento também está na zona de impacto do Quilombo Kalunga e do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A ANM declarou que analisa interferências com base na legislação minerária vigente e que não há regra que impeça atividades minerárias em territórios quilombolas. Segundo a agência, as restrições totais alcançam terras indígenas e unidades de conservação de proteção integral.
O Parque Estadual Cristalino, no norte de Mato Grosso, é apontado como a área mais afetada. Há nove pedidos da 3D Minerals no entorno da unidade, sendo dois na divisa e os demais na fronteira sul, às margens do rio Teles Pires. O Observatório registra 18 processos de minerais críticos no entorno do parque, todos apresentados entre 2018 e 2024.
A Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso afirmou que não licencia empreendimentos de mineração no entorno do parque, mas informou ter licenciado três projetos após decisão judicial. A pasta disse que avalia riscos de erosão, assoreamento, contaminação e impactos sobre rios, nascentes e a unidade de conservação. O ICMBio não se manifestou.
Fonte: Repórter Brasil.

