Partículas radioativas deixadas pelo desastre de Chernobyl conservaram grande parte de sua estrutura cristalina original mesmo após quatro décadas no solo, segundo uma análise feita com raios X de alta precisão. O resultado indica que alguns fragmentos podem reter substâncias radioativas em seu interior por mais tempo do que o previsto.
O estudo examinou seis partículas recolhidas em dois locais da região contaminada. Os fragmentos tinham entre 8 e 50 micrômetros — dimensões menores que a espessura de um fio de cabelo — e foram analisados na linha de luz Rossendorf, em Grenoble, na França. O trabalho envolveu pesquisadores da Leibniz University Hannover e do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf (HZDR).
Os cientistas usaram difração de raios X por luz síncrotron para identificar as fases cristalinas dos óxidos de urânio presentes nas amostras. Cada partícula foi girada em um feixe de raios X de aproximadamente 100 micrômetros, com medições realizadas a partir de 2 mil ângulos diferentes.
Três tipos de partículas
De acordo com a análise descrita pelos pesquisadores, os resíduos podem ser divididos em três grupos. O primeiro é formado por partículas ainda semelhantes ao combustível nuclear de dióxido de urânio. O segundo reúne fragmentos parcialmente ou totalmente envolvidos, ou fundidos, com a camada de zircônio que protegia o combustível.
O terceiro tipo surgiu durante o incêndio do grafite usado como moderador no reator. O material queimou por dez dias, enquanto o combustível se oxidou e formou diferentes compostos de urânio, incluindo o U3O8. Por ser mecanicamente frágil, esse óxido pode se desintegrar em partículas microscópicas que são transportadas pelo vento.
A estrutura desses resíduos é relevante porque o desgaste das partículas pode determinar quando substâncias radioativas passam para o solo e a água. Os resultados sugerem que alguns fragmentos são mais estáveis quimicamente do que se imaginava e conseguem manter produtos da fissão presos em sua estrutura.
Resultado não vale para toda a área contaminada
Os pesquisadores ressaltam que a descoberta não significa que a contaminação de Chernobyl tenha deixado de representar riscos. Cada partícula apresenta composição e estrutura próprias, e o estudo analisou apenas seis amostras de dois locais.
Por isso, os dados ainda não permitem estabelecer como os resíduos se comportam em toda a região afetada nem fazer afirmações gerais sobre os riscos à saúde. Mesmo que a maioria das partículas se degrade de forma semelhante, fragmentos mais persistentes podem liberar radionuclídeos em um momento posterior.
Novos experimentos estão sendo realizados para investigar fases transurânicas altamente radioativas presentes nos resíduos. O objetivo é compreender melhor como os materiais nucleares se transformam e por quanto tempo seus efeitos ambientais podem permanecer.

