O acúmulo excessivo de RNA dentro das células pode danificar as mitocôndrias e reduzir a produção de energia, segundo um estudo liderado por pesquisadores da Texas A&M University. O efeito foi observado em experimentos relacionados a infecções por poxvírus e ocorreu mesmo sem a participação do sistema imune.
As mitocôndrias são estruturas responsáveis por produzir grande parte da energia necessária para a sobrevivência e o funcionamento celular. A pesquisa foi publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e identificou uma possível ligação até então pouco conhecida entre o controle do RNA e a manutenção da energia das células.
RNA em excesso afetou mitocôndrias isoladas
As células produzem e degradam RNA continuamente. Esse processo ajuda a controlar a produção de proteínas, eliminar moléculas defeituosas e regular respostas imunológicas. Quando a produção supera a capacidade de degradação, porém, o material pode se acumular.
Durante a multiplicação, os vírus produzem grandes quantidades de RNA. Os pesquisadores analisaram o que ocorre quando esse acúmulo ultrapassa a capacidade de limpeza celular. A equipe esperava que o dano às mitocôndrias fosse provocado indiretamente pela ativação do sistema imune, já que alguns tipos de RNA funcionam como sinais de alerta durante infecções.
Os experimentos apontaram outra possibilidade. Mesmo quando os cientistas isolaram as mitocôndrias e adicionaram RNA, houve sinais de dano. Os problemas também apareceram antes de uma ativação imunológica significativa e não dependeram das vias imunes normalmente acionadas durante uma infecção.
O resultado indica que o RNA em excesso pode interferir diretamente no funcionamento das mitocôndrias. O mecanismo exato ainda não foi definido. Uma hipótese dos pesquisadores é que a carga elétrica negativa do RNA, quando acumulado próximo às mitocôndrias, altere o equilíbrio elétrico necessário para a produção de ATP, molécula usada como principal fonte de energia pelas células.
O papel do RNA mensageiro
Um dos achados considerados mais inesperados pela equipe foi o efeito do RNA mensageiro, conhecido como mRNA. Essa molécula é normalmente produzida pelas células e transporta instruções genéticas para a fabricação de proteínas.
Os cientistas já sabiam que o excesso de RNA de dupla fita, frequentemente associado a infecções virais, poderia desencadear respostas imunes potencialmente prejudiciais. O estudo sugere que o excesso de mRNA também pode afetar as mitocôndrias, embora seja uma molécula normalmente necessária ao funcionamento celular.
Segundo os pesquisadores, poxvírus — grupo que inclui os vírus responsáveis pela varíola e pela mpox — parecem contar com mecanismos de degradação de RNA. Essa capacidade ajudaria a manter as células infectadas funcionais por tempo suficiente para a replicação viral, já que os vírus dependem da energia e da produção de proteínas da célula hospedeira.
Os resultados levantam a possibilidade de que o acúmulo anormal de RNA participe de processos relacionados ao envelhecimento, a alguns tipos de câncer e a doenças neurodegenerativas. O material fornecido sobre o estudo, porém, ressalta que são necessárias novas pesquisas para determinar se o mecanismo tem papel direto nessas condições.
A descoberta também pode ser considerada no desenvolvimento de terapias baseadas em RNA, incluindo vacinas de mRNA. Entender como as células processam e degradam grandes quantidades dessas moléculas pode ajudar a aperfeiçoar tratamentos futuros. O estudo não demonstra que vacinas de mRNA atualmente disponíveis causem danos às mitocôndrias em pessoas.

