Uma investigação da WIRED identificou mais de 400 aplicativos e domínios associados a ferramentas que se apresentavam como serviços comuns de inteligência artificial, mas escondiam recursos para criar imagens e vídeos sexuais abusivos. Os sistemas permitiam o envio de fotos de pessoas para inserção em cenas explícitas, incluindo conteúdos violentos.
Os aplicativos eram divulgados como geradores de retratos de animais, aulas de idiomas ou treinadores de exercícios. Em determinadas condições, porém, carregavam uma interface na internet voltada à produção de deepfakes pornográficos. A reportagem cita, entre os modelos disponíveis, cenas de estupro e de ameaça com faca.
A rede também incluía aplicativos distribuídos nas lojas oficiais da Apple e do Google. Segundo a investigação, os usuários podiam comprar créditos para gerar as imagens e realizar pagamentos por meio de serviços como Apple Pay e Google Pay. O aplicativo DiffAI, baixado mais de 100 mil vezes, foi retirado da Play Store pouco antes de a WIRED procurar o Google.
Aplicativos mudavam de comportamento conforme a origem do usuário
Pesquisadores que analisaram os programas afirmam que eles faziam uma consulta a servidores assim que eram instalados. A resposta considerava informações como origem do usuário, idioma e identificadores do aparelho para decidir se seria exibida a função aparentemente inofensiva ou a interface explícita.
Paul Bouchaud, pesquisador da organização AI Forensics, disse à WIRED que um dos gatilhos identificados era o download após o clique em anúncios publicados nas plataformas da Meta. Os pesquisadores também encontraram códigos que conectavam os aplicativos e listavam outros domínios, chaves de criptografia e rastreadores de publicidade.
Maël Le Touz, pesquisador da empresa de segurança Infoblox, identificou quase 500 domínios relacionados. A análise indicou que os aplicativos começaram a surgir no fim de 2025 e chegaram a ser registrados em ritmo de cerca de 30 por semana. Em setembro, 27 deles estavam ativos na loja do Google e, juntos, tinham ultrapassado 350 mil downloads, de acordo com a pesquisa citada.
Apple removeu 19 aplicativos
A Apple retirou 19 aplicativos, entre eles o Viefur, que era apresentado como uma ferramenta para criar imagens de animais. A empresa afirmou que os programas haviam sido aprovados inicialmente e depois passaram a carregar conteúdo pornográfico por meio de alterações no site conectado ao aplicativo. A companhia classificou a prática como uma estratégia de troca de conteúdo após a aprovação e disse ter suspendido dezenas de milhares de aplicativos por comportamentos semelhantes no último ano.
O Google não respondeu ao pedido de comentário da WIRED. A maioria dos aplicativos já havia sido removida antes do contato da reportagem, segundo a publicação.
A investigação associou parte importante da operação a desenvolvedores chineses e à empresa KeLing Technology Limited, registrada em Hong Kong. A ligação foi baseada em domínios, códigos, endereços de e-mail e páginas de contato. A empresa não respondeu às solicitações de comentário. Depois de ser procurada, teria removido referências públicas que a conectavam a alguns dos serviços.
Anúncios foram veiculados em Facebook e Instagram
Os pesquisadores chegaram aos aplicativos após examinar milhares de anúncios com conteúdo explícito publicados no Facebook e no Instagram. A WIRED afirma que dezenas de milhares de anúncios associados à rede foram identificados desde o início de 2026, usando nomes aparentemente falsos e páginas com pouca ou nenhuma atividade.
A Meta informou que havia banido a KeLing Technology Limited de sua plataforma de publicidade em 2025, após uma notificação para que interrompesse as atividades. Depois de receber da WIRED uma lista com mais de 400 domínios, a empresa disse ter relacionado a eles mais de 3 mil anúncios e removido dois terços desse conjunto. Também afirmou ter tomado medidas contra 11,6 mil contas de anúncios, 4,7 mil páginas comerciais, 5.200 usuários e 15 mil páginas, além de bloquear 209 aplicativos de anunciar na plataforma.
Segundo a reportagem, anúncios e aplicativos semelhantes continuavam sendo publicados quando a apuração foi concluída.

