A cultura do cancelamento deixou de funcionar, em muitos casos, como uma sentença definitiva para artistas e influenciadores, mas continua produzindo disputas de reputação, julgamentos coletivos e pressão pública. A avaliação é de especialistas em comunicação ouvidos em reportagem sobre as transformações das redes sociais.
O fenômeno se tornou mais fragmentado, acelerado e associado a perfis de fofoca, influenciadores, fã-clubes e outros agentes que convertem controvérsias em engajamento, segundo Carol Govari, doutora em comunicação e pesquisadora do tema. Para ela, a mudança não significa que o cancelamento tenha perdido força.
“Talvez esteja enfraquecida a ideia de cancelamento como uma sentença definitiva, capaz de apagar uma pessoa da vida pública, mas continuam muito presentes as disputas de reputação, os julgamentos coletivos, a intimidação e a pressão pública”, afirmou Govari.
Casos com efeitos diferentes
Em fevereiro de 2021, Karol Conká foi eliminada do Big Brother Brasil 21 com 99,17% dos votos, recorde histórico do reality. Depois de deixar o programa, a cantora relatou que familiares passaram a receber ameaças.
Em julho deste ano, Viih Tube e Eliezer foram criticados após promoverem uma competição entre empregados domésticos. O Ministério Público do Trabalho atuou contra os influenciadores, que firmaram um acordo para retirar do ar o reality show As Patroas, no qual empregados domésticos competiam por dinheiro e folgas.
Apesar da repercussão negativa, os dois não sofreram perdas mais expressivas, de acordo com o material. Três meses depois, Viih Tube anunciou um curso para criadores de conteúdo. O episódio contrasta com a percepção de alguns anos atrás, quando um cancelamento era associado à perda de contratos, emprego, credibilidade, seguidores e renda.
Mais pessoas, mais controvérsias
Maiara Orlandini, doutora em comunicação que estuda o fenômeno, relaciona a popularização dessas mobilizações ao crescimento do número de influenciadores e à mudança na relação da sociedade com a internet. Segundo ela, no começo dos anos 2000 havia menos pessoas com influência digital e a conexão entre mobilizações online e offline era menor.
A expansão do acesso ajuda a dimensionar essa mudança. Em 2025, 90,5% dos brasileiros com 10 anos ou mais usaram a internet, o equivalente a 168,7 milhões de pessoas, segundo o IBGE — o maior percentual da série histórica.
Durante a pandemia de covid-19, o tempo diário de exposição dos brasileiros às telas passou de 6,5 para 10,5 horas, conforme pesquisa de 2020 da Universidade Federal de Minas Gerais. Para a biblioteconomista Dulce Hirli, que dedicou o mestrado ao tema, a retomada da rotina coletiva após o período mais intenso de isolamento também pode ter contribuído para a percepção de que as mobilizações perderam intensidade.
Polêmicas continuam nos rastros digitais
A velocidade com que os episódios começam e terminam está ligada, segundo os especialistas, à economia da atenção. Como a atenção do público é limitada, diferentes controvérsias disputam espaço nas plataformas. Com mais pessoas sendo criticadas ao mesmo tempo, um caso pode perder visibilidade quando outro passa a concentrar o interesse.
“Houve uma certa rotinização do cancelamento. A palavra passou a ser usada para situações muito diferentes entre si, de denúncias graves a controvérsias que duram poucas horas, o que pode produzir a sensação de banalização”, disse Govari.
Isso não impede que episódios antigos retornem. Orlandini define esse efeito como a existência de “rastros digitais eternizados”: publicações e acusações podem voltar a circular anos depois e motivar novas ondas de críticas.
Um exemplo citado no material é o de MC Livinho. Após uma apresentação no Tiny Desk em setembro, uma acusação de racismo contra uma dançarina, feita em 2020, voltou a repercutir nas redes sociais. O caso ilustra como a passagem do tempo não elimina necessariamente os efeitos de uma controvérsia no ambiente digital.

