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Geleiras da Suíça perdem quase 20% do volume desde 2021

Relatório aponta perda de 5,5% apenas no ano hidrológico encerrado em setembro e alerta para efeitos sobre água, energia e turismo.

Por Vitoria · October 2, 2026

As geleiras da Suíça perderam quase um quinto do volume de gelo desde 2021, segundo um relatório divulgado nesta quinta-feira (2) pela Rede Suíça de Monitoramento de Geleiras (GLAMOS) e pela Comissão Suíça de Observação da Criosfera, ligada à Academia Suíça de Ciências. No ano hidrológico encerrado em 30 de setembro de 2026, a redução foi de 5,5%.

Os pesquisadores relacionam o derretimento acelerado à combinação entre um inverno com pouca neve e temperaturas recordes durante o verão europeu. A neve protege o gelo do calor; com uma cobertura menor, as geleiras ficaram mais expostas ao aumento das temperaturas.

O verão de 2026 foi o mais quente já registrado na Suíça, de acordo com Matthias Huss, chefe da GLAMOS e um dos pesquisadores do relatório. Em setembro, uma equipe da rede visitou 23 geleiras para medir a perda de gelo e o acúmulo de neve ao fim do verão.

Na geleira Scex Rouge, nos Alpes suíços ocidentais, os pesquisadores constataram uma redução de três metros no gelo entre julho e o início de setembro. Uma haste de medição de cerca de quatro metros, instalada em julho a quase 3 mil metros de altitude, estava exposta três metros além do ponto inicial quando a equipe retornou.

Segundo o relatório, a espessura média das geleiras suíças diminuiu entre 2,5 e 4 metros em 2026. Nas línguas glaciais — extensões estreitas que avançam a partir do corpo principal da geleira — a redução chegou a 10 metros em alguns locais durante o verão.

Perda de água afeta abastecimento e energia

Entre julho e setembro, as geleiras perderam cerca de 2,2 trilhões de litros de água. Os cientistas afirmam que o volume equivale a mais de quatro vezes o consumo anual de água potável de todas as residências suíças.

A água do derretimento é usada para abastecer lagos de hidrelétricas e contribui para a formação de alguns dos maiores rios da Europa. O glaciologista Harry Zekollari, pesquisador associado da Vrije Universiteit Brussel, afirmou que as geleiras funcionam como reservatórios naturais, liberando água durante o verão, quando o período é mais quente e seco.

Com a redução do volume de gelo, porém, esse fornecimento tende a diminuir. De acordo com Zekollari, o pico de contribuição hídrica das geleiras dos Alpes europeus já foi ultrapassado, e a expectativa é de que elas forneçam cada vez menos água nos próximos anos.

Turismo alpino sob pressão

A Suíça é um dos principais destinos mundiais para esportes de inverno e turismo alpino. Cerca de 4% da força de trabalho do país está empregada no setor de turismo, que depende da paisagem e das condições das montanhas.

Huss afirmou que os efeitos já são visíveis na aparência dos Alpes: as montanhas estão deixando de ser predominantemente brancas e ficando mais cinzentas e escuras. As geleiras menores são as que desaparecem mais rapidamente, enquanto as maiores também perderam grandes volumes de gelo, embora ainda permaneçam extensas.

O relatório e os pesquisadores também alertam para o risco de impactos sobre áreas costeiras. A maior parte do gelo perdido se transforma em água que chega aos oceanos, contribuindo para a elevação do nível do mar, além de as mudanças nas geleiras poderem favorecer riscos naturais.

As projeções dependem da evolução das emissões e das temperaturas. Segundo Zekollari, uma interrupção rápida do aumento das emissões ainda permitiria preservar cerca de um terço da massa de gelo das geleiras suíças e dos Alpes. Em um cenário de forte aquecimento, porém, elas podem perder mais de 90% do volume até 2100.

Vitoria