O observatório IceCube identificou neutrinos com energia estimada em até 10 bilhões de vezes a de partículas semelhantes produzidas pelo Sol. Instalado sob o gelo da Antártida, o equipamento permite investigar visitantes cósmicos extremamente raros e pode ajudar a esclarecer fenômenos que ocorrem em regiões distantes do Universo.
Neutrinos são partículas elementares sem carga elétrica e com massa muito pequena. Como interagem raramente com a matéria, atravessam planetas e corpos quase sem sofrer alterações. Cerca de 100 bilhões deles passam por cada centímetro quadrado do corpo humano a cada segundo, segundo o material divulgado pela Universidade da Califórnia em San Diego.
O físico George Fuller, professor da instituição, explicou que essas partículas podem viajar por distâncias imensas e escapar de ambientes extremos, como os que cercam estrelas em colapso e buracos negros. Por isso, elas funcionam como mensageiras de processos que nem sempre podem ser observados por meio da luz ou de outras formas de radiação.
Como o IceCube detecta as partículas
O IceCube ocupa aproximadamente um quilômetro cúbico de gelo. Para construir o observatório, os pesquisadores perfuraram a camada congelada e instalaram longas sequências de detectores de luz, chamados tubos fotomultiplicadores.
Quando um neutrino interage com o gelo, pode produzir uma partícula carregada, como um elétron ou um múon. Esses produtos da interação geram breves flashes azuis conhecidos como radiação Cherenkov. A análise do padrão luminoso permite estimar a energia do neutrino e reconstruir a direção de onde ele veio.
Os exemplares mais energéticos são muito mais raros do que os neutrinos produzidos pelo Sol. O observatório registra apenas algumas dezenas deles por ano. Em alguns casos, a energia chega a ser 10 bilhões de vezes superior à de um neutrino solar típico. O material também menciona uma partícula detectada por um experimento semelhante cuja energia foi 200 vezes maior que esse nível, mas sua origem ainda não é conhecida.
Partículas ainda cercadas por perguntas
Os neutrinos podem ser classificados em três tipos: elétron, múon e tau. A massa exata de cada um ainda não foi determinada, assim como o mecanismo responsável por sua produção. A interação responsável por permitir sua detecção é a força fraca, muito menos intensa que o eletromagnetismo.
A pesquisa sobre essas partículas já esteve relacionada a cinco Prêmios Nobel de Física. Em 2026, Francis Halzen recebeu o prêmio por contribuições decisivas para o observatório IceCube e pela descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica. Ele também colaborou com Fuller em um trabalho científico inicial sobre o projeto.
Além das observações feitas na Antártida, pesquisadores esperam obter novas pistas no Observatório Simons, instalado no deserto do Atacama, no Chile. O projeto estuda a radiação cósmica de fundo, registro do Universo primordial, e poderá fornecer informações sobre neutrinos formados nas primeiras etapas da história cósmica. Esses dados podem ampliar o conhecimento sobre o Big Bang e a evolução inicial do Universo.

