Escavações no sítio arqueológico de Oued Beht, no noroeste do Marrocos, identificaram a mais antiga construção defensiva de grande escala conhecida no norte da África fora do Egito. A estrutura tem entre 4 mil e 3,5 mil anos e indica que as comunidades da região já conseguiam planejar obras extensas, organizar mão de obra e proteger áreas estratégicas.
O sistema foi construído em uma parte estreita de uma elevação situada entre um rio e uma ravina. Ele inclui uma vala formada em várias fases, um aterro e uma parede que bloqueavam o acesso à extremidade sul da crista. A datação por radiocarbono de depósitos associados às estruturas estabeleceu a cronologia apresentada no novo estudo.
Os pesquisadores ainda não sabem contra quais ameaças a construção foi erguida. A interpretação mais provável é que ela estivesse relacionada ao aumento da disputa por terras e recursos, ao controle da circulação pela paisagem ou à afirmação de poder sobre uma posição estratégica. O material não aponta evidências específicas de uma invasão.
Um centro agrícola e de produção artesanal
Oued Beht já era conhecido por concentrar vestígios de atividade humana em uma área de pelo menos dez hectares. A fase mais antiga e expressiva do local remonta a aproximadamente 5.400 a 4.900 anos, no período Neolítico Final.
Restos de plantas e animais indicam uma comunidade que cultivava cevada e trigo, coletava espécies silvestres e criava animais. O sítio também abrigava produção artesanal: foram encontrados milhares de machados de pedra polida e outras ferramentas, além de cerâmicas bem elaboradas, algumas com padrões pintados.
Ainda não está claro se Oued Beht funcionava como uma aldeia permanente, um centro sazonal ou outro tipo de assentamento. A concentração de vestígios, no entanto, mostra que o local tinha importância regional no noroeste marroquino.
A presença de possíveis muros e aterros antigos havia sido registrada desde a década de 1930. O arqueólogo francês Armand Ruhlmann documentou uma configuração com três paredes e um quarto lado protegido pelo desnível natural da elevação. A natureza e a idade dessas estruturas permaneceram incertas até as escavações mais recentes, realizadas em 2023.
Conexões com o Mediterrâneo
A construção remonta ao segundo milênio a.C., período equivalente à Idade do Bronze em outras áreas do Mediterrâneo ocidental. Na mesma época, comunidades do sul da Península Ibérica desenvolviam assentamentos planejados, posições fortificadas, produção de bronze e hierarquias sociais perceptíveis nos sepultamentos.
Os achados de Oued Beht reforçam a hipótese de que o Magrebe mantinha conexões com redes mais amplas de interação, incluindo áreas que hoje correspondem à Espanha e a Portugal. A região, portanto, não estaria isolada dos processos de transformação que ocorriam no Mediterrâneo ocidental.
O local voltou a ser ocupado muitos séculos depois. Entre os séculos 11 e 13 d.C., a estrutura defensiva foi reconstruída, uma pequena comunidade rural ou propriedade agrícola surgiu em uma colina próxima e um cemitério foi instalado entre as duas áreas. A sequência mostra que a elevação foi escolhida por diferentes grupos ao longo de milênios, e não correspondeu a um assentamento de apenas um período.

