AGORAAcompanhe as principais notícias do Brasil e do mundo.
Mundo

Justiça da Tunísia mantém presos ativistas de flotilha para Gaza

Quatro homens estão em prisão preventiva desde março; três fazem greve de fome, enquanto famílias relatam piora na saúde e impactos sobre crianças.

Por Vitoria · September 27, 2026

A Corte de Apelação de Túnis rejeitou, na quarta-feira, o recurso contra a extensão da prisão preventiva de quatro ativistas tunisianos ligados à Global Sumud Flotilla, campanha internacional que pretende levar ajuda a Gaza e contestar o bloqueio israelense ao território palestino. Com a decisão, Wael Naouar, Ghassan Henchiri, Ghassan Boughdiri e Nabil Channoufi permanecerão detidos por mais quatro meses enquanto prossegue a investigação.

Os quatro estão presos desde março por determinação do Polo Judicial Econômico e Financeiro da Tunísia, órgão especializado em crimes econômicos e financeiros. A apuração examina a origem e o uso de recursos arrecadados para a flotilha e busca esclarecer se parte do dinheiro foi desviada para outras finalidades, segundo informações da agência estatal TAP citadas pela Al Jazeera.

Os ativistas e a defesa negam irregularidades e afirmam que são inocentes. Nenhum dos quatro foi condenado. O governo sustenta que o caso é uma investigação financeira, sem relação com as atividades políticas ou pró-palestinas dos acusados, e rejeita a alegação de que o Judiciário esteja sendo usado para silenciar opositores.

Greves de fome e deterioração da saúde

Wael Naouar, de 41 anos, iniciou uma greve de fome em 16 de agosto para protestar contra a detenção. Após 38 dias, ele interrompeu o protesto depois de apelos de advogados e apoiadores e foi levado a um hospital quando seu estado se agravou. Segundo seu pai, Hichem Naouar, o ativista apresentava tontura, dificuldade para enxergar, vômitos e problemas para controlar a perna esquerda durante uma visita recente.

Henchiri está em greve de fome desde 9 de setembro, de acordo com seu pai, Sebti. A família afirma que ele permanece consciente, mas visivelmente exausto. O ativista também teria um ferimento na cabeça sofrido durante sua detenção em Israel, além de problemas nas costas, viver com um rim e apresentar uma irritação na pele. A família diz que ele ainda não foi levado para exames médicos fora da prisão.

Ghazzi?

A defesa questiona a necessidade de manter os quatro presos durante a investigação. Ghassan Ghribi, integrante do comitê de defesa, afirmou à Al Jazeera que o juiz responsável passou seis meses no caso sem realizar outras diligências além de interrogar os ativistas. O recurso contestava uma extensão de quatro meses determinada em 11 de setembro.

Famílias afetadas pelas detenções

O pai de Naouar relatou que a prisão alterou o comportamento de Yassar, de 9 anos. O menino passou a dormir ao lado da mãe depois de acordar gritando à noite e teve piora no desempenho escolar. Durante uma visita, a filha mais nova de Wael, Sumud, de 4 anos, tentou abraçar o pai e bateu a cabeça no vidro que os separava.

O impacto também alcançou pessoas detidas durante um protesto de 19 de setembro pela libertação dos ativistas. Quatorze manifestantes foram colocados em prisão preventiva, segundo o advogado Rafed Rabbeh. Entre eles há um adolescente de 17 anos levado a um juiz especializado em menores. As acusações incluem participação em reunião supostamente destinada a perturbar a ordem pública, atribuição pública de atos ilegais a um agente sem provas e declarações consideradas prejudiciais à reputação de uma pessoa ou órgão oficial.

A Human Rights Watch também manifestou preocupação com o uso de investigações financeiras e de lavagem de dinheiro contra integrantes da sociedade civil na Tunísia. Enquanto os processos avançam, as famílias dizem enfrentar visitas tensas, telefonemas marcados pela incerteza e perguntas de crianças sobre quando os pais voltarão para casa.

Vitoria