Novos aparelhos de ar-condicionado usam radar, sensores de movimento e inteligência artificial para identificar onde as pessoas estão dentro de casa e direcionar o resfriamento. A proposta é reduzir o consumo de energia sem comprometer o conforto, mas especialistas ouvidos pela WIRED afirmam que a economia real dessas tecnologias ainda não está clara.

O setor busca alternativas para conter o impacto do aumento da demanda por refrigeração. Segundo os dados apresentados pela reportagem, aparelhos de ar-condicionado e ventiladores respondem por cerca de 20% da eletricidade usada em edifícios no mundo e por 3% a 4% das emissões totais de gases de efeito estufa. A quantidade de aparelhos em uso pode chegar a 5,5 bilhões até 2050.

Como funciona o rastreamento

A LG lançou um modelo DualCool AI com radar de alcance de cinco metros para detectar pessoas e ajustar o fluxo com base nos padrões de movimentação. A Hisense, por sua vez, desenvolveu o Companion Living AC, que usa sensores de uma casa inteligente para identificar trajetos recorrentes e pré-resfriar determinadas áreas.

Na prática, o aparelho pode reconhecer que o morador costuma sair da sala em direção à cozinha e preparar o ambiente antes que ele chegue. A ideia é concentrar o ar frio em zonas ocupadas, em vez de resfriar todo o espaço com a mesma intensidade.

A Samsung afirma que o modo de energia com inteligência artificial de seu Bespoke AI WindFree Pro pode gerar economia de até 30% em testes residenciais da empresa. O modelo também pode receber dados de um Galaxy Watch ou Galaxy Ring para identificar quando o usuário adormece e ativar uma configuração de resfriamento mais suave.

A Dyson utiliza uma câmera de baixa resolução no Purifier Cool para detectar até seis pessoas. O sistema transforma os dados em coordenadas anônimas, processadas no próprio aparelho e apagadas depois, segundo a empresa. O equipamento pode alternar o direcionamento do fluxo de ar e entrar em modo automático quando não detecta ninguém no ambiente.

A Midea planeja lançar o VitaBreeze no início de 2027. O produto combina imagens dos cômodos fornecidas pelo usuário com radar de ondas milimétricas para formar uma grade virtual tridimensional do espaço. A companhia afirma que o sistema pode economizar mais de 30% de energia no modo de refrigeração em comparação com aparelhos sem esses algoritmos.

Economia ainda é incerta

Para Björn Palm, professor sênior de tecnologia energética do KTH Royal Institute of Technology, em Estocolmo, o direcionamento preciso do ar tem potencial para diminuir o consumo. Ele ressalva, porém, que não é possível determinar com clareza quanto cada sistema economiza.

Vincent Romanin, fundador e diretor de tecnologia da Gradient, fabricante de aparelhos de janela com bomba de calor, avalia que os sensores de presença podem oferecer ganhos marginais. Segundo ele, reduzir o consumo estrutural de um edifício teria impacto maior do que acrescentar uma função de rastreamento a um equipamento.

O ar-condicionado médio vendido em 2024 já era cerca de 20% mais eficiente do que um modelo equivalente de 2014. Ainda assim, a Agência Internacional de Energia prevê que a demanda por refrigeração aumentará em 1.600 terawatts-hora até 2035, volume comparável ao consumo total de eletricidade do Japão e da Coreia do Sul.

Bombas de calor e refrigerantes

Para Palm, a transição para uma refrigeração mais sustentável depende de três frentes: bombas de calor compactas e mais baratas, refrigerantes menos nocivos e sistemas com menor carga desses fluidos, o que aumenta a segurança.

As bombas de calor podem aquecer e resfriar ambientes com eficiência. A Gradient informa que seus aparelhos usam normalmente um terço menos de energia do que um ar-condicionado de janela convencional, além de serem projetados para instalação pelo próprio usuário e para ocupar menos espaço.

Outra frente envolve a substituição de refrigerantes sintéticos por alternativas naturais, como o propano R290 usado no Climate 6000iP, da Bosch. A reportagem cita uma estimativa de que vazamentos de refrigerantes respondam sozinhos por 720 milhões de toneladas métricas de emissões equivalentes de dióxido de carbono por ano. O propano reduz o potencial de aquecimento global, mas é inflamável e exige mudanças de engenharia para evitar faíscas e limitar a quantidade usada.

A conclusão dos especialistas é que sensores capazes de acompanhar o morador podem melhorar o conforto e trazer alguma redução no consumo, mas a sustentabilidade da refrigeração dependerá principalmente de avanços em bombas de calor, compressores e refrigerantes.

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Felipe é autor do Ginga Notícias e acompanha os principais acontecimentos do Brasil e do mundo. Escreve sobre temas de interesse público e assuntos que movimentam o noticiário, buscando apresentar informações de forma clara, contextualizada e acessível ao leitor.

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