Mais de duas décadas depois de sua publicação original, Cyberselfish, livro em que Paulina Borsook examina a influência do libertarianismo na cultura do Vale do Silício, será relançado pela editora Tin House. A obra, que estava fora de catálogo, voltou a atrair leitores e pesquisadores interessados em entender como a indústria de tecnologia chegou ao momento atual.

Em entrevista ao TechCrunch, Borsook afirmou que o livro foi concebido como uma espécie de relato de viagem por uma subcultura que ela tentava compreender. A autora começou a circular por ambientes ligados à tecnologia na região da baía de São Francisco nos anos 1980 e identificou, na década seguinte, discursos que considerava hostis à regulação e pouco atentos ao papel do governo no desenvolvimento do setor.

Publicado pela primeira vez em 2000, Cyberselfish descreve o techno-libertarianismo como um conjunto de crenças que combina defesa radical da liberdade individual, oposição à intervenção estatal e uma visão de que os mercados deveriam evoluir sem controles externos. Para Borsook, essa postura ignorava os subsídios públicos e os investimentos governamentais que ajudaram a formar a indústria tecnológica.

Crítica à continuidade da cultura empresarial

A autora disse ver mais continuidade do que ruptura entre o ambiente que analisou no livro e a indústria atual. Na avaliação dela, a abertura de capital da Netscape marcou uma transformação no Vale do Silício, com a entrada mais forte de interesses financeiros e a valorização de estratégias de curto prazo.

Ela citou empresas como Airbnb e Uber como exemplos de negócios que, em sua interpretação, foram apresentados como inovação tecnológica, embora estivessem mais associados a operações financeiras e à resistência a regras locais. Borsook também criticou a disposição de parte do setor de rejeitar regulações mesmo quando suas atividades produzem efeitos sobre comunidades e mercados, como o habitacional.

A entrevistada distinguiu ainda grupos culturais presentes no Vale do Silício. De um lado, descreveu os “Ravers”, ligados a uma contracultura de liberdade pessoal, drogas, música e experiências como o Burning Man. De outro, colocou os “Gilders”, associados a posições socialmente conservadoras. Segundo ela, as duas correntes continuam presentes, inclusive entre lideranças atuais.

Borsook ressaltou que essa análise cultural não equivale a uma descrição do comportamento eleitoral de toda a região. Ela observou que a península de São Francisco continua votando nos democratas e afirmou que seu foco está sobretudo na classe dirigente da tecnologia, não necessariamente nos funcionários comuns.

Reedição após mobilização de novos leitores

O interesse renovado começou a ser percebido pela autora quando os preços de exemplares usados passaram a subir e pesquisadores europeus começaram a procurá-la. Publicações em redes sociais também classificaram o livro como uma obra que havia sido esquecida injustamente.

O movimento aproximou Borsook de Gil Durán, autor de Nerd Reich, que passou a defender a retomada do livro. A nova edição terá uma introdução escrita por Durán. O relançamento também ocorre depois de a obra ser mencionada em reportagens e discussões sobre os rumos da indústria tecnológica.

Ao comentar a inteligência artificial, Borsook afirmou que enxerga no setor a mesma combinação de autoconfiança, resistência à regulação e promessa de transformação que criticou no passado. Ela classificou o momento atual como uma “grande pirâmide financeira”, em referência ao que considera uma valorização excessiva das empresas de IA baseada no mercado acionário.

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Felipe é autor do Ginga Notícias e acompanha os principais acontecimentos do Brasil e do mundo. Escreve sobre temas de interesse público e assuntos que movimentam o noticiário, buscando apresentar informações de forma clara, contextualizada e acessível ao leitor.

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